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A Liberdade Guiando o Povo - Eugéne Delacroix

sábado, 14 de maio de 2011

A REVOLUÇÃO DA INFORMAÇÃO E AS CIDADES

INFORMAÇÃO, CIDADE E CONHECIMENTO:

POR UMA ABORDAGEM DO ESPAÇO URBANO

Trata-se de uma abordagem informacional das redes urbanas na construção do conhecimento na/da cidade, passando pela apropriação/apreensão do espaço através de cenários virtuais-informacionais, instituídos num certo lugar, com intenções e desejos variados, decodificados e reapreendidos num lugar outro, (re)significados a partir de uma certa unidade espaço-temporal, cada vez mais diluída e tênue pelo recurso da própria velocidade, e que aqui nos parecem vindas do lugar algum, produzidas por ninguém, e sem qualquer intencionalidade presente em sua (di)fusão. Propomos alguns mergulhos neste universo da informação-matéria-imaginação, abordando a materialidade da informação-imaginação, a imaginação da matéria-informação, e também a informatiCidade da matéria-imaginação. Queremos mergulhar nas tensões desta convivência múltipla, na diversidade e complexidade da coisa-sendo (constituinte e instituinte de relações) e também na multirreferencialidade do espaço, para uma compreensão da vida na e da cidade, na construção do conhecimento, do saber e da informação na rede urbana. Este ensaio propõe uma visão em rede do objeto cidade a partir de reflexões acerca dos fluxos de informação ger(i)(a)dos no espaço urbano como possibilidade para a construção do conhecimento. Observamos os vários percursos da informação e do conhecimento na cidade sob o ponto de vista dos seus aspectos físicos e relacionais como instituidores de redes informacionais.

Palavras-chave: cidade, informação, conhecimento, redes de informação, espaço urbano.


INFORMAÇÃO, CIDADE E CONHECIMENTO.

Embrenhei-me num deserto de areia: avançava afundando entre dunas de certa forma sempre diversas umas das outras e no entanto quase iguais. Conforme o ponto do qual fossem olhadas, as cristas das dunas pareciam relevos de corpos estendidos. Aqui parecia modelar-se um braço inclinado sobre um terno seio, com a palma estirando-se sobre uma face reclinada; além parecia surgir de um jovem pé de airosos artelhos. Parado a observar aquelas possíveis analogias, deixei transcorrer um bom minuto antes de me dar conta de que sob meus olhos não tinha um crinal de areia, mas o objeto de minha perseguição.

Italo Calvino

Cosmicômicas, 1992.

As abordagens sobre o espaço urbano são realizadas, em grande parte, com enfoque nos fatores físicos, arquitetônicos ou formais da cidade, ou nos fatores econômicos, sociais e culturais individualmente, havendo quase sempre a mutilação de alguns fatores importantes para a compreensão urbana, como por exemplo, os aspectos relacionais entre os elementos/fragmentos urbanos. O que pretendo com este ensaio é a construção de percursos que articulem as redes urbanas e suas questões (Castells), os espaços de fluxos de Milton Santos e a emergência em sistemas auto-organizados de Steven Johnson.

Pleiteamos para os estudos urbanos, em conjunto com as teorias da complexidade, a compreensão dos fenômenos do espaço-cidade  partir (também) das relações estabelecidas e estabelecentes da produção do conhecimento e da informação. Entendemos (também) a cidade como espaço de fluxos, e não apenas em sua configuração físico-espacial, ela é produto e produtora de complexidades que se apresentam nos indivíduos/ grupos e nas articulações/ produções das atividades humanas, onde configuram e constróem o espaço. A cidade aqui é entendida na diversidade de sua constituição, nos movimentos e dinâmicas dos seus elementos/ artefatos formadores, com atenção especial para as relações criadas e estabelecidas entre eles.

O espaço deve ser considerado como um conjunto de relações realizadas através de funções e de formas que se apresentam como testemunho de uma história escrita por processos do passado e do presente. Isto é, o espaço se define como um conjunto de formas representativas de relações sociais do passado e do presente e por uma estrutura representada por relações sociais que estão acontecendo diante dos nossos olhos e que se manifestam através de processos e funções. O espaço é, então, um verdadeiro campo de forças cuja aceleração é desigual. Daí porque a evolução espacial não se faz de forma idêntica em todos os lugares.
Mais uma vez aqui a noção de relatividade produzida por Einstein aparece como fundamental porque substitui o conceito de matéria pelo conceito de campo, o que supõe a existência de relações entre a matéria e a energia. Numa comparação talvez grosseira, as formas seriam comparáveis à matéria e a energia à dinâmica social. (Santos, 2002a. p.153).

 

CIDADES E REDES

Tratar a cidade num sistema em rede é uma forma de potencializar seus espaços e aqueles gerados a partir de suas articulações. E para isso é importante o entendimento das lógicas de funcionamento que conectam várias atividades/ações/objetos em seus fluxos. Redes de dados, redes de informações, redes de tráfego, redes de produção de conhecimento, redes de comunicação. São várias, e não basta listá-las. Mais importante é tentar conhecer seus princípios. Steven Johnson fala de sistemas auto-organizados em comunidades de formigas, em redes de softwares, no cérebro, e também em cidades. Neste último caso ele retoma algumas considerações de Jane Jacobs, que em seu livro Morte e vida de grandes cidades (1961) fala dos ‘olhos das ruas’, e da apropriação do espaço pelos nova-iorquinos. Os estudos sobre as comunidades de formigas ‘destruíram’ o mito da supremacia da ‘formiga-rainha’. Não existe a formiga-líder, e mesmo assim, o sistema funciona. Johnson ainda cita algumas propostas de softwares que tentam abrigar em sua arquitetura, estruturas auto-organizadas, ao que ele chama de softwares inteligentes, e que a partir do uso e dos conceitos construídos pelos usuários de forma não hierárquica o sistema vai ajustando-se a cada grupo de usuários, que por sua vez, interagem em rede.
O mesmo acontece com o espaço urbano, que à revelia de planos diretores de ocupação do solo, criam espaços especializados em alguns tipos de serviço/atividade ou grupo social. São bairros ou regiões da cidade que concentram empresas de comércio de auto-peças, de papelarias, roupas masculinas, roupas infantis, material esportivo, e assim por diante. Ou seja, existe uma organização que pulsa fora dos sistemas hierárquicos, e isto é uma lição da cidade para as abordagens urbanas.

No nosso caso, o termo abordagem pode ser entendido no sentido dado pela ciência: tratar de, versar sobre algum tema, como também em sentido originário, que vem de borda, estar na borda de algo, ou ainda no sentido de aproximação de uma embarcação para tomá-la de assalto. Estamos tentando uma aproximação com as embarcações da informação e do conhecimento para, nestes cenários e territórios, tratarmos das questões urbanas, que muito têm dos fluxos de informação e conhecimento.

Conhecimento e informação entendidos no sentido da apreensão do espaço e do conhecimento gerado a partir destas dinâmicas, como também de outros modos de produção de conhecimento que acontecem nos espaços urbanos. É importante atentarmos para o espaço urbano também nos seus aspectos físicos, pois é nele que as práticas urbanas acontecem, reconstruindo os sentidos de espaço, como também as lógicas das próprias práticas. São necessárias algumas aberturas nos conceitos de espaço-urbano para que este seja entendido nos aspectos físicos, nas práticas e produções cotidianas, e também nas dinâmicas das práticas nos espaços e dos espaços de práticas.

INFORMAÇÃO, CONHECIMENTO E REDES

Os caminhos da informação e do conhecimento, como também os caminhos na cidade podem parecer aleatórios, produzidos por ninguém, ou definidos segundo o acaso, ou o seu inverso – imposto pelos detentores/operadores do poder da informação e do conhecimento. Mas creio que eles são em grande parte, fruto dos desejos e aspirações de grupos-indivíduos, mesmo que originalmente não tenham sido os ‘pais’ dos ‘modos urbanos’, eles modificam e constroem o sistema à medida que se apropriam dos espaços, lugares e lógicas. É preciso invocar e compreender os sistemas auto-organizados estudados por Prigogine, tomá-los de assalto (e por que não?) para que então possamos estabelecer conexões entre os sistemas de fluxos de informação, conhecimento e pessoas na rede urbana.
Evocamos a informação, o conhecimento e a cidade com o intuito de articular o espaço urbano em suas várias dimensões e referências. Os espaços de fluxos, a circulação da informação, a construção do conhecimento e a capacidade de múltiplas dinâmicas do espaço urbano e da cidade são possibilidades de ligação entre estes campos para a compreensão do que podemos entender como matéria, imaginação e informação. A velocidade da comunicação, a grande capacidade de disseminação da informação pelos meios eletrônicos e de alta tecnologia podem levar aos ‘usuários’, a sensação de não-identidade das fontes da informação. Enquanto em outros meios, poderíamos identificar os autores e produtores da informação, o que observamos hoje é a difusão de páginas na rede mundial que propagam informações aparentemente despersonalizadas. Não que haja algum problema com a disseminação impessoal, apenas não creio que seja verídica esta possibilidade, pois nós produzimos, disseminamos e consumimos a informação, e ao fazermos qualquer um destes ‘passos’, a transformamos.

A questão fundamental aqui é o funcionamento dos sistemas em rede - redes de informação/ pensamento, através do imaginário instituinte da sociedade como aponta Castoriadis, ou da auto-organização dos sistemas emergentes de Steven Johnson.

Neste sentido, é importante a compreensão dos sentidos que articulam questões aparentemente tão distantes. Este, é já um exercício em rede. A propagação ou disseminação da informação na internet, como também nas cidades, acontecem pelas redes relacionais de informação. Redes estas, formadas pelos indivíduos e instituições na produção e espraiamento do objeto-informação. Por outro lado, temos a cidade e sua organização espacial que está ligada às questões econômicas, sociais, sociais e históricas, mas que funcionam como se houvesse algum maestro regendo a orquestra, mesmo que em determinados momentos ela desafine, perca o tom ou compasso. Este maestro não existe. A força da organização é a convivência negociada e ao mesmo tempo, tensional, dos atores sociais, na definição dos espaços de convivência. Podemos pensar numa espécie de ‘consciência’ social, que surge das vivências individuais e da aproximação com o ‘outro’ para a criação de ‘novos’ modos de vida e apreensão social. Novo, no sentido das modificações/ construções e transformações durante o processo de aprendizagem do espaço.

Na organização da cidade, Johnson fala de emergência, no ‘caminhar’ da sociedade, Castoriadis trata do imaginário instituinte, e Castells sobre o espaço urbano, trata da sociedade em rede. Observo nos ‘sistemas’ adotados e pesquisados por estes autores alguma coisa em comum, que é a produção de informação na cidade-sociedade e também de criação/produção de conhecimento na/da sociedade sobre/com o espaço urbano. Informação e conhecimento como articulação dos sistemas emergentes de auto-organização.
Há objetivos explícitos para uma cidade – razões de ser que normalmente seus cidadãos conhecem decorrentes da proteção proporcionada pela cidade murada ou do comércio livre nos mercados. No entanto, as cidades também têm um objetivo latente: funcionar como mecanismos de armazenamento e recuperação de informações. As cidades criaram interfaces amigáveis milhares de anos antes que alguém sonhasse com computadores digitais. As cidades juntam mentes semelhantes e as colocam em escaninho conexo. Sapateiros junto de outros sapateiros e fabricantes de botões perto de outros fabricantes de botões. Ideias e mercadorias fluem rapidamente nesses conjuntos, levando à produtiva polinização cruzada, garantindo que boas ideias não morram em áreas rurais isoladas. (Johnson, 2003. p.79)

Johnson, através da ‘emergência’ faz conexões da dinâmica de rede no funcionamento do cérebro, na organização das formigas, nos sistemas urbanos e nos softwares. Esta construção-contribuição permite vislumbrar algumas ‘viagens’ da informação por estes sistemas, e ainda a possibilidade de um conhecimento construente e coletivo. Podemos observar que os sistemas funcionam de modo articulado, e não estanque. Percebe-se um componente coletivo, ou imaginário instituinte na cidade, como também no próprio indivíduo-cérebro. São redes e grupos que trabalham articulando-se com outras redes e grupos.

Sob todos os aspectos, estamos no meio de outra revolução tecnológica – a idade da informação, uma época de conexões quase infinitas. Se o armazenamento e a recuperação de informação eram objetivo latente na explosão urbana da Idade Média, eles são os propósitos evidentes da revolução digital. Isso nos leva à seguinte questão: a Web também está aprendendo? Se é fato que as cidades podem gerar inteligência emergente – um macrocomportamento provocado por milhões de micromotivos -, que forma de nível mais alto está sendo gerada entre os roteadores e os cabos de fibra ótica da Internet? (idem. p.83)

Trata-se de auto-organização. As possibilidades do empreendimento da circulação de informação e construção de conhecimento tem seu potencial ampliado pelas redes informacionais de comunicação. Steven Johnson sugere para um melhor entendimento dos sistemas, a substituição das formigas por neurônios e do feromônio (deixado e seguido pelas formigas) por neurotransmissores como analogia da aprendizagem em formigas, no cérebro e quem sabe na Web, através da conexão dos vários cérebros em rede, o que permitiria ao sistema virtual, um comportamento de vizinhança, embora existam deslocamentos/ distanciamentos espaciais.

O que parece interessante é a capacidade de nossas mentes do reconhecimento da mente do outro; as formigas, pelo rastro de feromônio acumulam alimentos, ou limpam os detritos; as cidades aprendem as funções pela história de suas populações. Acho que isto poderia ser a ‘grande consciência’ que abrange os micromotivos e microcomportamentos ou a instituição imaginária da sociedade, na qual Castoriadis trata da imaginação, relacionando este termo com a imagem, em seu sentido mais geral e também com a ideia de criação:
[...] Não cria “imagens” no sentido habitual (ainda que as crie, também: marcos totêmicos, bandeiras, brasões, etc.), porém formas, que podem ser imagens no sentido geral (assim, falamos de “imagem acústica” de uma palavra), mas que são, de modo central, significações e instituições, as duas sempre solidárias. O termo ‘imaginário’ é aqui um substantivo, e se refere diretamente a uma substância: não é um adjetivo denotando uma qualidade. (1999. p.242)

Assim, trata-se de uma forma de conexão entre a imaginação e a matéria em sua ‘substância’. A imaginação na sociedade, como possibilidade de organização das ações e pensamentos conjuntos, tem implicações materiais e informacionais. A matéria, a imaginação e a informação andam juntas, e diria mais: não podemos facilmente separá-las. Conceber a informação sem o caráter de criação que imaginação pode dar, ou da materialidade da substância fluida é difícil: seria mutilação de sentidos e propósitos. Quero com isso, tratar das articulações entre estas grandezas, se assim podemos chamá-las, para que o pensamento sobre as práticas cotidianas no espaço urbano (assim, como o da circulação da informação pelas várias mídias) não seja a interpretação individualizada ou puramente hierárquica. Existe um componente coletivo e social que dão múltiplos sentidos, quer sobre o território, quer nas vias de transporte da informação. A informação toma o caráter de objeto e imaginação, produtora de diversidades, presente na organização sócio-espacial.


ESPAÇO DE FLUXOS

Milton Santos afirma que o espaço não é estático ou estanque, é fluido, ambiente de fluxos e velocidades:

Hoje, vivemos um mundo da rapidez e da fluidez. Trata-se de uma fluidez virtual, possível pela presença dos novos sistemas técnicos, sobretudo os sistemas da informação, e de uma fluidez efetiva, realizada quando essa fluidez potencial é utilizada no exercício da ação, pelas empresas e instituições hegemônicas. A fluidez potencial aparece no imaginário e na ideologia como se fosse um bem comum, uma fluidez para todos, quando, na verdade, apenas alguns agentes têm a possibilidade de utilizá-la, tornando-se, desse modo, os detentores efetivos da velocidade. O exercício desta é, pois, o resultado das disponibilidades materiais e técnicas existentes e das possibilidades de ação. (2002b. p.83)

O espaço, através da fluidez e rapidez adquire sentidos outros que o diferem do caráter determinista de outrora; o espaço dos fluxos e os fluxos do espaço estão mais próximos da vida contemporânea, onde a informação e o conhecimento transformam-se em valores expressivos da sociedade de consumo e de massas. Não devemos esquecer a advertência de Santos: a quem serve esta velocidade? Quem tem o domínio sobre ela? Existe aqui contradição que desejo explorar, sem, no entanto, pensar ser possível esgotar a discussão. Existem movimentos e dinâmicas da informação e do conhecimento, existem os sistemas financeiros e econômicos hegemônicos que detém o poder, e, portanto a informação e o conhecimento, e ainda podemos identificar na sociedade, os indivíduos/ grupos que imprimem suas marcas no tempo-espaço de suas vivências, construindo conhecimentos e saberes através das informações conquistadas/ processadas/ construídas. Como podemos falar de sistemas auto-organizados emergentes na cidade e na sociedade, se ainda os dilemas urbanos são mediados pelo capital e pelo poder financeiro e econômico? Se descolarmos a apreensão do espaço, quem sabe não poderemos entender os fenômenos de emergência e ‘subordinação’? Mas isto não seria uma mutilação do estudo e da abordagem? Não é disso que estamos fugindo quando evocamos a auto-organização e emergência em sistemas complexos? Não podemos cair na armadilha da simplificação, como forma única da compreensão destes sistemas-complexus.

Diante das dúvidas e até mesmo para permanecer com elas, é interessante que a abordagem possa abrigar a diferença e opacidade, o complexus e as contradições. Nesta via, a multirreferencialidade nos ajuda a caminhar por este emaranhado de informações, conceitos, conhecimentos, espaços, fluxos e cidade. Se pudermos dizer que a multirreferencialidade tem princípios, diríamos que são o da opacidade do objeto e dos múltiplos olhares, não como negação e mutilação de um ante o outro, mas como forma de distinguir e explorar visões outras, que um olhar hierárquico não pode admitir. A nitidez dos contornos e arestas não se apresenta, pois, a cada olhar, uma nova relação se estabelece.

Com estas observações vamos tentar encontrar caminhos para o drama exposto acima. Acredito que as instituições hegemônicas exercem seu poder de pressão sobre a sociedade como um todo, mas esta sociedade não absorve os princípios ingenuamente, existe uma retroalimentação do sistema que modifica a estrutura de poder por meio das micro-apreensões de cada uma das atividades ou a cada reconstrução do conhecimento. Esta dinâmica está presente tanto nos softwares inteligentes, nas cidades ou mesmo no cérebro, a diferença é de escala. Mas a proximidade entre os constituintes do sistema permite a criação de uma ‘consciência’ social mais geral.
Os fluxos nas redes geram outros fluxos a partir de suas próprias dinâmicas. O sistema não se resolve, ele terá sempre a dissipação de energia, o que é fundamental para a sua constante instabilidade e mudança.

Acerca das estruturas dissipativas, podemos falar de “auto-organização”. Mesmo que conheçamos o estado inicial do sistema, o processo de que ele é sede e as condições nos limites, não podemos prever qual dos regimes de atividade esse sistema vai escolher. O alcance desta observação impressionou-me. Não podem as bifurcações ajudar-nos a entender a inovação e a diversificação em áreas outras que a física ou a química? Como resistir à tentação de aplicar essas noções a problemas da esfera da biologia, da sociologia ou da economia?[...] (Prigogine, 1996. p.74)

A aplicação de princípios nascidos em outros ramos da ciência é de fato irresistível, o que leva para as possíveis conexões com a natureza. Uma ciência dá suas contribuições, que são apreendidas e ressignificadas por outras, e a partir daí elas começam a ganhar vida, e podem voltar ao seu nascedouro, já modificadas e transformadas, como num processo de contaminação e combate. Dissipação, auto-organização e emergência, princípios para a compreensão do espaço urbano, e neste sentido, a multirreferencialidade muito tem a contribuir:

A multirreferencialidade (...) parte da idéia de que o objeto é efetivamente suscetível de tratamentos múltiplos, em função não só de suas características, mas também dos modos de interrogação dos atores (sobre esse objeto) e que esta multiplicidade é radical. Cada abordagem, cada referente é como se fosse o limite do outro... É isso, pois que faz a especificidade da nultirreferencialidade, e não a complementaridade, a atividade, a pretensão de uma transparência pressuposta, e de um domínio possível (deste objeto), mas a afirmação de uma vazio necessário, da impossibilidade de (se alcançar) um ponto de vista superior a todos (os demais) pontos de vista e a afirmação da limitação recíproca dos diversos campos disciplinares. Há (pois) diversos campos de referência possíveis, nenhum esgota o objeto, nenhum pode, sobretudo, ser reduzido a outro, ou nenhum pode ser explicativo do outro campo. (Berger, apud Fróes Burnham. 1998:46)

A multirreferencialidade pode ser aqui uma base para as abordagens urbanas, e mais uma vez tomamos de assalto um conceito ao nosso favor. O que pretende-se com isso é a criação de possibilidades para os estudos dos espaços urbanos através de uma ciência que evite a mutilação do objeto. Ao chamar a atenção dos aspectos materiais, informacionais e imaginários dos processos urbanos e sociais, quero apenas indicar que o objeto modifica-se e transforma-se em função de nossa aproximação ou de nosso distanciamento. É como nas imagens evocadas por Ítalo Calvino (no início do texto) para descrever as dunas e as outras conexões estabelecidas a partir de sua forma. Assim, o olhar não vê apenas a areia que substancialmente conforma as dunas, mas faz dela matéria-prima para sua criação, e, portanto, com o uso da imaginação, reconstrói e cria espaços e conceitos díspares em relação à matéria original.


ABORDAGEM URBANA

Penso que alguns caminhos foram traçados em busca de possibilidades outras das abordagens urbanas. Não basta que cada ramo da ciência preocupe-se com a ‘fatia’ do mundo que lhes cabe. É preciso fazer com que as ciências interajam em suas pesquisas, só assim, poderemos caminhar para uma maior apropriação do espaço de nossas vidas. As ligações e articulações entre os objetos existem, é preciso não cortá-las. As ciências podem articular seus saberes e entender a sociedade como construção contínua e coletiva. É uma questão de processo, mais que qualquer outra coisa. Processo contínuo, sem uniformidade, com discrepâncias e contradições, onde as múltiplas dinâmicas procuram cada uma, os seus espaços e territórios.

E onde está o conhecimento, a informação e a cidade? O que tem isso com aquilo? Onde está o espaço urbano? E as redes informacionais? E a auto-organização? Essas perguntas eu continuo a fazer e não obtenho respostas. Talvez porque elas não sejam bem formuladas, pois dizem que uma questão bem formulada, certamente obterá êxito em sua busca. E no caso de termos respostas, para elas, perguntas também serão encontradas. Não estou certo, nem convencido de tudo isto. Mas uma coisa parece certa: para uma abordagem consistente do espaço urbano, não basta um estudo minucioso de suas ‘partes’. São necessários diálogos com a questão urbana, e para isso, as pessoas, as ruas, o capital, os lugares e as atividades precisam ‘falar’, precisam de expressão e de espaço para a comunicação nas abordagens e pesquisas. Aqui o conhecimento, a informação e a imaginação têm papel fundamental nas dialogias das dinâmicas urbanas.

Esta questão, pode em princípio parecer simples, pode até já ser uma prática corriqueira em alguns centros de estudos e pesquisas, mas de fato acredito na potencialidade da informação, da imaginação e do conhecimento, na produção e criação de mundos. O espaço de fluxos articula estas funções e grandezas; naqueles, estas se produzem e constituem o lugar fluido das correntes de bits de informação. Daí seguem para a construção de sentidos e portanto, de conhecimento, que por sua vez articula, concentra e dispersa ao mesmo tempo, indivíduos na formação/ geração da própria sociedade. Organismo fluido, com multi-sentidos, repleto de intenções e tensões no seu interior, onde o conhecimento é gerado e ao mesmo tempo gerido, por meio dos sistemas auto-organizados, base da sociedade e de sua mobilidade.

Aprender com os fluxos: o movimento das formigas, das abelhas e das aves, que sem líderes podem ‘polialogar’ através da aproximação e não pelo domínio supostamente exercido por um líder qualquer. Os movimentos emergentes podem ser observados também na apreensão da cidade em várias escalas de aproximação. Faz-se necessário pensar em rede, ter consciência desta condição, que é a mesma do funcionamento de nosso cérebro. De alguma forma as redes de informação no corpo humano funcionam e muito podem ajudar para o entendimento de outros sistemas. É a tentação de que escreve Prigogine, mas é preciso cuidado e rigor. As analogias contribuem para a aproximação e para conectar os objetos-ações, mas é preciso tentar a própria tentação. O pensamento em rede afasta a lógica do menor percurso entre dois pontos – a reta. Não temos dois pontos apenas a conectar. A vida se faz de multipontos e neste caso, Oscar Niemeyer tem muito a nos dizer:


Não é o ângulo reto que me atrai

nem a linha reta, dura, inflexível,

criada pelo homem.

O que me atrai é a curva livre e sensual,

a curva que encontro nas montanhas do meu país,

no curso sinuoso dos seus rios,

nas ondas do mar,

no corpo da mulher preferida.

De curvas é feito todo o universo

o universo curvo de Einstein. (2000. p.17)


Atrair-se pela linha curva: este é o nosso desafio. Os métodos elaborados, os caminhos rígidos e previamente definidos nas pesquisas, os ‘passos a seguir’, a previsibilidade, a monotonia, tudo isso se esvai quando da compreensão dos caminhos múltiplos, da leveza, da materialidade e imaginação do objeto. O inusitado e o inesperado estão nas curvas, onde a trajetória é cambiável, onde não existem impedimentos nem amarras para o percurso. Mais uma vez: informação, conhecimento, cidades e redes – articulações para os espaços urbanos – não são ‘coisas’ dadas, são construídas, forjadas e concebidas, e não o são por heróis ou mentes brilhantes. A produção do conhecimento é algo coletivo, não está totalmente dentro do indivíduo, é preciso provocar, tencionar para que a instabilidade interno-externo faça reagir a capacidade de criar e conectar.

O conhecimento como produto das relações humanas com o mundo-ambiente é fundamental nas articulações dos fluxos no espaço e dos espaços de fluxo. A coisa-informação e a coisa-conhecimento é a coisa-sendo.

Construção, incertezas e inacabamento ...

Deixem-me ficar por estas curvas de nossa abordagem.


BIBLIOGRAFIA

CALVINO, Italo. As cosmicômicas. tradução: Ivo Barroso. São Paulo: Companhia das letras, 1992.

CASTELLS, Manuel. A questão urbana. Tradução: Arlene Caetano. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983.

CASTORIADIS, Cornelius. Feito e ser feito: as encruzilhadas do labirinto V. tradução: Lílian do Valle. Rio de Janeiro: DP&A, 1999.

FRÓES BURNHAM, T. Complexidade, multirreferencialidade, subjetividade: três referências polêmicas para  compreensão do currículo escolar. In: BARBOSA, Joaquim Gonçalves. Reflexões em torno da abordagem multirreferencial. São Carlos: EdUFSCar, 1998, pp. 35-55.

JOHNSON, Steven. Emergência: a vida integrada de formigas, cérebros, cidades e softwares. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.

NIEMEYER, Oscar. Minha arquitetura. 3ª ed. Rio de Janeiro: Revan, 2000.

PROGOGINE, Ilya. O fim das certezas: tempo, caos e as leis da natureza. tradução: Roberto Leal Ferreira. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1996.

SANTOS, Milton. Técnica, espaço, tempo: globalização e meio técnico-científico informacional. 4ª ed. São Paulo: Hucitec, 1998.

________. Por uma geografia nova: da crítica da geografia a uma geografia crítica. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo,

2002a.
________.Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. 9ª ed. Rio de Janeiro:

 

 

 

 

 

 

 

 

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“Nós, que sobrevivemos aos campos, não somos as verdadeiras testemunhas. Esta é uma idéia incômoda que passei aos poucos a aceitar, ao ler o que os outros sobreviventes escreveram, inclusive eu mesmo, quando releio meus textos após alguns anos. Nós, sobreviventes, somos uma minoria não só minúscula, como também anômala. Somos aqueles que, por prevaricação, habilidade ou sorte, jamais tocaram o fundo do poço. Os que o fizeram, e viram a face das Górgonas, não voltaram, ou voltaram mudos”

Primo Levi, escritor italiano, foi um dos 23 sobreviventes entre os 649 judeus que foram encaminhados para Auschwitz com ele em abril de 1944.

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